quarta-feira, 27 de junho de 2012

NAS MARGENS DO RIO MEKONG NO NORTE DA TAILÂNDIA







Estávamos no norte da Tailândia, no Triângulo Dourado, zona onde convergem o rio Mekong e o rio Ruak, definindo as fronteiras entre os três países que se avistam em simultâneo dali: o Laos, o Mianmar (antiga Birmânia) e a Tailândia.



 
A etapa final da viagem, naquele dia, foi feita de barco ao longo do famoso rio Mekong. Era uma embarcação frágil. O motor fazia muito barulho e toda a estrutura do barco parecia estremecer, enquanto cortava as águas do rio que corriam com alguma força.

A paisagem era bonita, mas o céu estava carregado. A certa altura, avistámos umas construções bastante rústicas, na beira do rio e que davam para um cais. O barco mudou de rumo e abrandou a marcha. O cais estava bastante gasto, mas, parecia minimamente cuidado. Era aquele o nosso destino do final do dia. Atracámos e saltámos para a plataforma de tábuas que fazia de cais e que rangia de uma forma pouco convidativa. Nessa altura, começámos a sentir umas gotas grossas caírem sobre as nossas cabeças.



 

Tínhamos sorte. O nosso hotel distava uns trezentos a quatrocentos metros do ancoradouro. A água do rio barrenta ainda parecia mais rápida e ameaçadora. Do cais, conseguíamos ver, naquele final de tarde, o nosso hotel envolto por uma vegetação luxuriante. Ficava do outro lado da estrada marginal ao rio, no meio de um dos numerosos montes que se conseguiam ver daquele ponto.
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Precisávamos de fazer apenas um pequeno percurso a pé, mas tivemos que correr. De repente o céu pôs-se cor de chumbo, tão escuro que parecia pesar, parecia que se ia rasgar. E “rebentou” mesmo. Assim que entrámos a porta do hotel, abriram-se as portas do céu. Parecia que toda a água do mundo se abatia sobre nós. Nunca tínhamos visto nada assim...

Fizemos o checK-in, na recepção do hotel. Indicaram-nos os nossos quartos. As portas dos quartos abriam todas para uma longa varanda que dava para os jardins. As luzes nas paredes eram ténues. O calor húmido era intenso. Assim como tinha surgido, a chuva pára. Foi só o tempo de seguirmos para os nossos quartos. Quando lá chegámos, só ouvíamos o "ping-ping" das gotas a caírem do beirado dos telhados.

Depois que o céu se esvaziou da água que carregava, fez-se um silêncio denso. Entrámos no quarto. Fizemos o reconhecimento do costume. Instalámo-nos, depois que as malas chegaram. Fui à pequena varanda do quarto. Mal podia acreditar... A lua enorme brilhava a ponto de se conseguir vislumbrar o seu reflexo no rio que corria em baixo. As colinas recortavam-se em vários pontos da paisagem nocturna. Começavam a ouvir-se pequenos ruídos __ o “gri-gri” dos grilos, o coaxar das rãs e outros. Agora percebíamos porque é que uma quantidade tão grande daqueles minúsculos batráquios apareciam por todo o lado, nos corredores do hotel e até mesmo nos candeeiros.

Mas será que a diversidade do nosso planeta é tão grande assim?

Lembrei-me daqueles momentos, agora que ouço o silêncio. Uma trovoada repentina começou há pouco. Acordámos de súbito. Um enorme estrondo fez-se sentir a ponto de parecer que a casa abanava. Outro relâmpago... e novo trovão. Uma bátega de água tomba com uma força “pesada”. O céu tinha-se rasgado. A porta do nosso quarto abre-se com violência. O Bob estava ao lado da nossa cama, olhando para a porta como se algo de monstruoso por ali pudesse entrar a qualquer instante. À medida que a tempestade se ia desenrolando, tive que me levantar várias vezes da cama para o acalmar. Acabei por me mudar para o quarto de hóspedes com ele.





Mas, então, o silêncio impôs-se de repente. Peguei na caneta...

Lembrei-me do Triângulo Dourado. De repente, estava lá... De repente, viajava de barco a motor meio desengonçado... De repente, corria debaixo daquelas gotas cada vez mais grossas e abundantes... De repente, entrava na profunda calma daquele distante país tropical. Só que, desta vez, o calor não era intenso e húmido e os sons eram apenas os da lembrança.

É o que a memória dos sentidos tem __ basta uma trovoada, ainda que não seja tropical mas sim de um clima temperado, para viajarmos no tempo e no espaço. O problema é que as alterações climáticas que se vão fazendo sentir, fazem com que as diferenças vão sendo cada vez menores e menos previsíveis.


(Imagens retiradas da NET)





sexta-feira, 22 de junho de 2012

NO RIO MEKONG UMA AVENTURA QUASE FATAL - CHIANG MAI / TAILÂNDIA




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Não foi bem isto que fizemos... 
O rio era o mesmo. As condições diferentes.





A viagem prosseguia manhãzinha cedo do dia seguinte. A neblina do nascer do dia já lá ia. Tínhamos que formar pequenos grupos que se encarrapitavam em cima daqueles pequenos barcos de motores primitivos. Íamos equipados com as nossas capas plásticas amarelas.




Recomeçou a chuviscar. A corrente do rio era muito forte. Naquele local, de um lado e de outro do rio, a vegetação tinha um porte pouco elevado. Cada uma das margens apresentava uns caniços que ladeavam aquele troço do rio a todo o seu comprimento.

A  velocidade  da  pequena  embarcação  começou a aumentar, e pareceu-nos que, a certa altura,  houve  um pequeno descontrolo.  Pouco  tempo  depois, avistámos  umas enormes manchas negras envolvidas por uma revolta espuma branca.




À medida que nos íamos aproximando daquela zona , a velocidade ia aumentando cada vez mais, já não só à custa da força do motor. Parecia-nos que algo muito poderoso sugava o nosso barco. As enormes manchas negras não eram mais do que gigantescos pedregulhos semi-submersos, lisos, quase sem arestas, e que se sobrepunham; e, a espuma branca, era da água que neles embatia. Estávamos a entrar numa zona de rápidos... As margens galopavam, as colinas distantes sucediam-se...

A chuva tinha começado a cair com mais intensidade. Formava uma cortina à nossa frente e impedia que se vissem as margens com nitidez, tal era a espessura de água que , entretanto,  caía do céu. Nem o frágil toldo da embarcação nos protegia da chuva. Procurámos enrolar-nos melhor nos impermeáveis, preocupados sobretudo com as máquinas de filmar e fotográficas.

Começaram a aproximar-se perigosamente aquelas enormes massas de pedra.   O barco já não segue uma rota direita, é puxado ao sabor das correntes.   Pedras  de  um dos  lados, pedras do outro, começamos a passar entre elas. A certa altura, o barco dá um safanão, a sua ré vai para cima de uma daquelas massas lisas e negras.  Saltamos ou não saltamos?... Estamos no meio do rio. Não, não seria boa ideia. Ficámos como que suspensos, por uns instantes. Também a nossa respiração abrandou. Novo safanão. O barco solta-se. Salta em frente. Parecia que ia mergulhar. Continua caminho. Continuam os solavancos, cada vez com menos violência. Ainda não foi desta que encomendámos a alma ao Criador. Mas, foi por um triz...

A chuva continuava a cair. O barco parecia ainda mais desconjuntado. As nossas capas amarelas de pouco ou nada tinham servido para manter as nossas roupas secas. Mas, as máquinas não se molharam e nós estávamos "safos" desta...





( Os diferentes humores de um rio... )

Cá do nosso longínquo Ocidente podemos perguntar-nos: e onde estavam os coletes, e os capacetes, e o motor adaptado a um barco para percorrer um curso de água daquela natureza, e o próprio barco, e... e?... Sem dúvida que, naquelas paragens, não há as normas da CEE e tudo pode ser uma aventura para não dizer um risco. Mais ainda... Não há dúvida de que este planeta comporta vários mundos. O que poderá ter o seu encanto. Só que, às vezes, é preciso sorte, para o poder vir a contar. Se calhar foi o que nos aconteceu no momento em que o barco deu o solavanco e se "soltou" do pedregulho.




(Montagens de imagens feitas a partir de fotografias tiradas da NET)



sexta-feira, 1 de junho de 2012

À ENTRADA DE CASCAIS - LISBOA / PORTUGAL







De Inverno, na Primavera, Verão ou Outono é sempre um encanto chegar a este ponto da Marginal. Quando o Sol brilha a luz intensa faz reluzir o mar que vem beijar esta vila piscatória, hoje, voltada para o turismo e muito acolhedora. Quando as núvens se acastelam no céu e o ar é de tempestada, é a vila que aconchega o mar e os seus pescadores. 




Cascais não cansa. Podia estar melhor tratada, sem dúvida. Mas, ainda assim, não deixa de ser um pequeno "bijou" nesta ponta da Península Hibérica...






Mas, isto também existe... Há dias. meses, anos já feitos que este homem aqui permanece quase diariamente, deitado junto com os seus tarecos que é como quem diz, meia dúzia de sacos que constituirão todos os seus haveres. Hoje, Portugal, como tantos outros países, sofre uma crise económica grave... A situação deste homem já vem de mais longe. Mas a pergunta é: será que vamos ter mais gente nas ruas?!... Muita da pobreza ficará envergonhada dentro de casa... Quanta dela não sabemos que existe. Quanta poderá resistir a estes tempos de incerteza.




São cinco, seis da tarde, dia de semana, hora de trabalho. Mas este espaço também é um espaço de trabalho e, há bem pouco tempo, cheio de gente que vinha trabalhar,  lanchar, ao cinema ou às compras. O que lhes aconteceu?!... Fala-se em crise. E , provavelmente, ela está aqui espelhada no vazio destas mesas e destes espaços. Só nos resta esperar que breve, breve, volte o vai-vem de trabalho e lazer que faz parte do nosso recente passado tão presente.


(Fotografias tiradas em Maio)