quinta-feira, 25 de março de 2010

A BATALHA ESTAVA GANHA

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Tinha chegado há pouco tempo. Os estragos eram imensos: uma despensa deitada literalmente a baixo; buracos de todos os tamanhos por todo o quintal; a sebe da altura de um homem destruída; roseiras arrancadas; a chave do carro com telecomando inutilizada; móveis roídos; os meus óculos de sol; etc, etc, etc... Realmente já era mais do que um simples mortal consegue aguentar.

Até que chegou o dia dos canos de gás!... Era incomportável. Era um perigo. Nem dentro, nem fora de casa. Agora, era eu quem queria que ele se fosse embora. “... de preferência para uma quinta onde o tratassem bem...”. As lágrimas corriam. Não havia alternativa.

Foi então que um dono, apesar de estar em pleno desespero, disse: “__ Não faz mal. Põe-se cimento em volta dos tubos...”

Ele tinha ganho! Já era nosso! Fazia parte da família... As lágrimas secaram, mas a paciência não.



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Foi assim que entrou em nossa casa o cão mais meigo e brincalhão que já tive na vida. Incapaz de uma atitude agressiva, apesar de ser muitos quilos de cão, o nosso Bob é um Bobtail, cão pastor inglês, a que chamam o “nanny dog” por ser um cão muito manso e adequado para crianças. Mas, naqueles dias, quem o diria?!... Imagine-se, então, se não fosse!...
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Fica o testemunho... Estes nossos companheiros peludos podem dar-nos água pela barba enquanto cachorros, mas, no final, vale a pena teimar apesar do estado caótico e desesperado em que entramos nós, a casa e tudo o resto...


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segunda-feira, 22 de março de 2010

DESABAFAR PODE SER UMA FORMA DE NOS OUVIRMOS OU FAZER OUVIDOS, ENCONTRANDO UM NOVO EQUILÍBRIO

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(Imagem retirada da NET)
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A DRª ROSE HILFERDING DIZ QUE um dos melhores remédios para aliviar as perturbações “ é conversar com alguém de confiança sobre o que nos aflige. (...) falar à vontade dos problemas, até os eliminar por completo do nosso espírito. Ficar a ruminar as preocupações, causa grande tensão nervosa. Devemos compartilhar com alguém as nossas dificuldades. Devemos revelar o que nos preocupa. Necessitamos sentir que existe alguém no mundo capaz de nos compreender.”


Se calhar, há mais com quem desabafar do que nós pensamos. Basta termos um ombro amigo que nos saiba ouvir. Esse amigo pode até ser uma folha de papel ou um ecrã de computador. Não sabemos quem, quando ou se alguém nos "ouve" o que precisamos libertar para fora de nós. Mas, a nossa mente e a nossa alma ficam mais leves, atiramos com os "insectos das preocupações" para longe, e talvez possamos encontrar a compreensão de quem nos ouve ou lê...
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sexta-feira, 19 de março de 2010

LIVRO

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(Imagem retirada da NET)
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O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.




(Padre António Vieira, 1608 - 1697)
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sábado, 6 de março de 2010

À DESCOBERTA DE FERNANDO PESSOA

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Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

Sim, mas agora,

Enquanto dura esta hora,

Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

Deixem-me crer

O que nunca poderei ser.





(Poema de Fernando Pessoa enviado pela Isaltina)
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Têm-me enviado poemas de Fernando Pessoa, de quem apenas tinha ouvido falar e sabia ser um dos expoentes da poesia portuguesa.
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Não conhecia os seus versos... Mas gosto do que estou a descobrir!...
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sexta-feira, 5 de março de 2010

MÃE

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( Detalhe do quadro "FRÁGIL" - em execução)

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MÃE - Traço de união, exemplo de coragem, atenção, mimo, bom senso e amizade.
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quarta-feira, 3 de março de 2010

DOURO / PORTUGAL – A ESCOLHA PELO ESSENCIAL

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Terra de vinha, batata, milho, castanha, cereja... Cereja, essa fruta tão bela e tão frágil. Brincos vermelhos e rosa que enfeitam os nossos dedos em gostoso deleite. Maio, mês da cereja. Vai-se da cidade, de bem longe por vezes, por um fruto tão apetecido.
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Mas, um dia, um homem que era da cidade porque a vida assim o determinou, decidiu partir para as terras do Douro para lá ficar até ao fim dos seus dias.
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Serra do Marão vista do lado de Resende
(Fotografia cedida pela minha mãe)
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Douro. Terra das neblinas matinais que sobem do fundo do vale em gigantescas massas de algodão, deixando descobertos ao fundo o Marão e as partes mais altas dos montes. Terra do frio das manhãs de Outono marcado nas gotas coladas aos vidros das janelas de guilhotina e caixilhos brancos. Terra do gorgolejar de fontes de águas frescas e pequenos regos de água que facilmente se encontram ao curvar na vereda ou ao poisar no som oco da laje que serve de “ponte”. Terra do eco da tarde que serve de veículo a saudação ou recado ainda mesmo que à distância. Terra que um dia nos viu brincar e que nos permitiu conhecer melhor aquele homem que foi da cidade.
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Homem da cidade que escolheu a aldeia; as gentes do campo como interlocutoras; o doce perfume das maçãs empilhadas no sombrio e fresco armazém grande; a sala com as janelas voltadas para o Marão, com o soalho feito de longas tábuas corridas que rangem à nossa passagem marcando a sua presença.
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Pois é! Os sons... Também eles tão diferentes. Os poucos carros que por ali passam vão pela estrada que está lá longe... ouve-se o chiado do carro de bois que penosamente avança na calçada íngreme e pedregosa anunciando o começo de um novo dia, e que ainda assim vem atrasado porque os galos já o cantaram desde a alvorada. As badaladas do sino da capela que encima a aldeia e chama os fiéis ou toca a rebate em caso de incêndio. Os inevitáveis foguetes nas festas de Verão que troam por todos os montes e vales, mas que festejam quem vem à terra matar saudades. A música da carrinha dos frangos que se espalha pelas margens do Douro e dá um tom de alegria à sua passagem. A saudação cordial devida a quem passa seja homem ou mulher, conhecido ou forasteiro.
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E que bem sabe o fresco da tarde debaixo da parreira junto ao tanque da rega!... e ver os campos cuidados; ter os ovos na capoeira, as frutas à mão, uma cesta de cerejas colhidas ali mesmo naquela cerejeira que está ali ao fundo.
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Sem dúvida de que a listagem seria imensa... Uma listagem imensa do essencial para viver bem quem um dia foi da cidade e aprendeu a roer o caroço da cereja...
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(Foto retirada da NET)
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terça-feira, 2 de março de 2010

"CEREJAS" - EM MEMÓRIA DE QUEM ONTÉM NOS DEIXOU...

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A minha taça já está muito vazia de cerejas. E quantas delas não desperdicei!... Pior ainda, os meus cinquentas ainda não me ensinaram a roer bem os caroços... Mas houve quem o conseguisse fazer até que se apagou a chama da vida. A sua taça ficou vazia, finalmente. O essencial!... Apenas o essencial!... E foi assim que viveu aquele homem que tive a sorte de conhecer.
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Este poema de Mário de Andrade ilustra bem como viveu um homem que saboreou as suas cerejas desde muito cedo:


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(Fotografias retiradas da NET)


"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
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Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
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'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!"
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...Também para ele bastou!


(Poema de Mário de Andrade - enviado pelo Filipe)